Ben Russell (1976) é um artista, cineasta e curador americano cujo trabalho se situa na interseção entre etnografia e psicadelismo. Os seus filmes e instalações dialogam diretamente com a história da imagem documental, oferecendo uma investigação temporal sobre o transe como fenómeno.

Russell foi um dos artistas expositores na documenta 14 (2017) e o seu trabalho foi apresentado no Centre Georges Pompidou, no Museum of Modern Art, na Tate Modern, no Museum of Modern Art Chicago, no Festival de Cinema de Veneza e na Berlinale, entre outros.

Recebeu a Bolsa Guggenheim (2008), de um Prémio Internacional da Crítica FIPRESCI (IFFR 2010, Gijón 2017), estreou a sua segunda e terceira longa-metragens no Festival de Cinema de Locarno (2013, 2017) e venceu o Grande Prémio Encounters no Festival de Cinema de Berlim (2024).

Os projetos curatoriais incluem Magic Lantern (Providence, EUA, 2005-2007), BEN RUSSELL (Chicago, EUA, 2009-2011), Hallucinations (Atenas, Grécia, 2017) e Double Vision (Marselha, França, 2024-). Atualmente, reside em Marselha, França.

 

 

Against Time (2022)
Ben Russell

Ben Russell e o cinema como utopia

O que o realizador e artista Ben Russell nos propõe com os seus filmes, dos quais poderemos ver uma selecção na presente edição do Festival Family Film Project, são materializações críticas de várias acepções da experiência de viagem, interior e exterior, física e metafórica, real e surreal, tal como o cinema pode veicular.

É assim que nas curtas-metragens da série Trypps, realizadas entre 2005 e 2010, podemos reconhecer todo programa do cinema de Russell, desde logo inscrito e plasmado no seu título, e declinado sob a forma de miniaturas cinematográficas que testam e expandem os limites da experiência e formas do cinema através do cruzamento entre experimentalismo, performance, psicadelismo, etnografia e elementos da história do cinema e seus dispositivos.


Estes filmes tornam explícito o interesse do realizador em explorar o movimento (e não a narração) como dado primeiro do cinema, e reenviam simultaneamente aos seus primórdios, concretamente à linhagem documental e etnográfica, de observação do movimento ‘objectivo’ do mundo, e dos seus habitantes, e à linhagem experimental, atenta às qualidades formais e afectivas dos extremos do movimento do próprio cinema; reenviam também às tendências mais contemporâneas do filme etnográfico e experimental, nas suas vertentes sensoriais e estruturais, como modo de aceder ao movimento interior e subjectivo, i.e., à psique, e, por extensão, à experiência intersubjectiva e intercultural da vida.


O motivo da viagem surge, pois, como forma de unir etnografia e psicadelismo através das poéticas da imagem cinematográfica. Tal traduz-se em investigações formais, destabilizadoras das tradicionais divisões entre documentário e ficção e dos nossos modos e hábitos de ver, que, envolvendo as personagens reais dos filmes, espectadores e realizador, querem desencadear experiências colaborativas, imersivas e colectivas, da ordem do transe, do ritual e do transcendente, para produzir o equivalente de um tratamento especulativo da subjectividade.  A deslocação livre pelo mundo, de Rhode Island ao Suriname, passando pelo Dubai, as Badlands (Trypps, 2005-2010, Let each one go where it may, 2009, He who eats children, 2016), Malta (Atlantis, 2014), Finlândia, Grécia (The invisible mountain, 2021), Marselha (Against Time, 2022), entre outros lugares, e culminando em Notre Dame des Landes, na Zone à Défendre (Direct Action, 2024, co-realizado com Guillaume Cailleau), com uma câmara na mão, é uma maneira de ir ao encontro de outras formas de vida, muitas das quais sub-representadas, e de outros estados psíquicos, e de através do acto, muitas vezes partilhado, de filmar e de assim lhes dar forma, provocar ou esperar provocar de volta uma transformação.

Black and White Trypps Number One (2005)

Ben Russell

A este propósito, Ben Russell refere, na senda de Trinh T. Minh-Ha, que o documentário, enquanto categoria para designar um material, género, abordagem, série de técnicas de aproximação ao real e ao outro, que se oporia à ficção, não existe, pois estamos sempre perante um ‘tratamento criativo da realidade’. Isto não corresponde a uma refutação da verdade ou da facticidade da imagem, mas prende-se com o facto de haver sempre uma selecção envolvida no processo da sua produção e na decisão de gravar ou registar.


A forma é o conteúdo, ou seja, trata-se sempre de fabricar alguma coisa que só é possível graças ao cinema e é iminentemente uma experiência cinematográfica, ou seja, uma experiência que é também a da imagem, não apenas no sentido reflexivo, mas também em sentido performático e fenomenológico. 


Ao mesmo tempo, representar ou enquadrar significa não fechar, não transformar o outro num objecto de saber. Assim, a tradição do cinema etnográfico como forma objectiva de conhecimento do ‘eu’ através dos outros tem de ser complementada pela ambição, que Russell reconhece no pensamento e nas práticas psicadélicas, de compreensão sensorial e subjectiva de nós mesmos e do mundo. "O resultado é uma dialética simultaneamente incorporada e crítica, na qual os terrores e os prazeres de nos perdermos são equilibrados pela necessidade de saber onde estamos, quem e o que somos, particularmente em relação àqueles que não somos nós.”(Entrevista de Luciana Dumitru a Ben Russell, https://bieff.wordpress.com/2013/12/12/river-rites-interview-with-ben-russell/, consultado em 22 de Agosto de 2024)
O cinema de Ben Russell reinterpreta a abordagem do cine-transe de Jean Rouch, centrando-se na compreensão intuitiva e emocional em vez de no conhecimento etnográfico tradicional. A  sua "etnografia psicadélica" mistura a experiência subjectiva com a análise crítica, visando uma compreensão empática da alteridade através do próprio cinema. Russell aborda a etnografia enquanto artista, secundarizando a sua dimensão disciplinar e científica e dando ênfase aos aspectos experienciais e extáticos dos rituais.


Interessa-lhe explorar a semiótica da espiritualidade e da religiosidade, tal como se manifesta através de signos exteriores, que variam de cultura para cultura, mas que reflectem a mesma necessidade comum e universal de conexão com o transcendente. No entanto, o que procura é registar ou encenar um determinado tipo de experiência para a traduzir numa experiência completamente diferente.  É através da transição do terreno etnográfico para o terreno do cinema que Ben Russell pode pôr em tensão a dupla natureza ritualista dos fenómenos de transe interculturais, ao juntar, por exemplo, o transe da cultura saramacana e as práticas da contracultura americana em que está imerso, bem como o acto de filmar. É assim que, estruturalmente, filmes como Black and White Trypps Number Three (2007) e Trypps #6 (Malobi) (2009) partilham, nas palavras do próprio Russell, não só o transe como experiência comum, mas também a música como catalisador de rituais. Um transe é secular, desencadeado pela música de um concerto dos Lightning Bolt, enquanto o outro é desencadeado pela cerimónia ritual e fúnebre de Adjo. São semelhantes porque nos mostram que a autenticidade do que vemos está duplamente ligada à realidade - as pessoas, as experiências que dão forma ao filme - e à sua mise-en-scène, tornada sensível pela presença de claquetes, movimentos de câmara e flash frames, que obrigam a reposicionarmos-nos não só em relação ao mundo, mas também à própria imagem. 

Trypps #6 (Malobi) (2009)
Ben Russell

Por sua vez, filmes como Let Each One Go Where He May (2009), a sua primeira longa-metragem, e He who eats children (2016), ou, por exemplo, Atlantis (2014) e The Invisible Mountain (2021), prolongam a exploração do mesmo paradoxo, na construção de retratos especulativos e alucinatórios, na evocação fictícia ou mítica de uma civilização perdida ou na busca de uma montanha utópica: o que se passa diante da câmara é uma mistura de factos e de encenação, de realidade e representação.


O que devém relevante não é a verdade ou autenticidade da experiência gravada pela câmara, com a sua função diferenciadora de uma dada cultura em relação a outra, mas a própria experiência ritualística do cinema, para além de qualquer mediação ou tradução, num exercício de etnografia subjectiva ou reflexiva.


O cinema surge como esse não lugar especulativo e especular sobre e das subjectividades e da sua produção, que nos devolve a utopia de outras formas de vida possíveis. Através de rituais e de viagens transcendentes de vários tipos, para lá da impenetrabilidade das psiques alheias e dos signos que as deixam adivinhar, o que sobressai é a universalidade de uma sujectividade humana comum, pós-colonial, no sentido de semelhante, para lá das diferenças, no modo como nos devolve uma imagem de nós próprios enquanto outros, por meio do cinema e de como este nos permite engajar num equivalente visceral e fenomenológico do movimento das formas e dos corpos no ecrã.

Let Each One Go Where He May (2009)
Ben Russell

Condicionados pelos determinismos das nossas vidas, por vezes esquecemo-nos de que não vivemos no melhor dos mundos, e que o mundo se constitui também da potência de outros modos de existência alternativos. A câmara de Russell investiga essas subjectividades alternativas, individuais e colectivas, fazendo-se eco de ressonância no presente das utopias surrealistas, psicadélicas, comunitárias e políticas, através da utopia do próprio cinema:
‘Essa sociedade de humanos que ainda se reúne silenciosamente no escuro, que vive brevemente uma vida colectiva sob uma visão cintilante unificada - e que depois se dispersa, cada indivíduo transformado, e regressa ao seu próprio quotidiano: é o mais próximo de uma sociedade ideal que consigo imaginar. Estou a falar de cinema, claro, e estou cada vez mais convencido de que o cinema é o único local onde a utopia pode ser verdadeiramente realizada. É um não-lugar, um tempo-espaço, um presente que está sempre a chegar e que precisa da nossa presença para existir.’ (Entrevista de Erika Balsom a Ben Russell, sobre Atlantis, https://www.vdrome.org/ben-russell-atlantis/, consultado em 22 de Agosto de 2024)

- Susana Nascimento Duarte

Direct Action (2024)
Ben Russell

Foco Ben Russell

#1 Ben Russell

16:OUT 21h15–23h30 135'
Batalha Centro de Cinema

Ben Russell

17:OUT 21h15–21h40 25'
Batalha Centro de Cinema

#4 Ben Russell

18:OUT 21h15–23h38 143'
Batalha Centro de Cinema

Ben Russell

19:OUT 14h30–15h30 60'
Batalha Centro de Cinema

#5 Ben Russell

19:OUT 16h00–19h33 213'
Batalha Centro de Cinema